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"Miniatura" é um poema do livro Praga de Poeta, de Victor Rodrigues.

 

MINIATURA a bela adormecida agora vive acordada à base de remédios, sempre estressada. na terra do nunca invadiu o trabalho infantil, produção em série, rentável como nunca se viu. animais de espécies raras estão em extinção: não há mais pica-paus, pernalongas, frajolas, porquinhos, patolinos ou pequeninos piu-pius. tom e jerry correram, os ursinhos carinhosos se enfureceram, zé colmeia partiu e scooby-doo sumiu. não existem mais reis leões nem meninos lobos nas florestas. não é mais fantástico o mundo de bob; os flinstones são civilizados, os jetsons estão ultrapassados. a turma da mônica brigou e se desuniu. a bela é aquela que agora espera a fera que perdeu a hora; a fera que foi embora e bateu a porta, a bela que agora chora e aborta. cinderela se divorciou, os anões pediram demissão, alice voltou, limparam as migalhas do chão, aladin largou jasmine, chapeuzinho mandou a vovó pro asilo, pinóquio foi trocado por marfim, fizeram couro do crocodilo. o bicho-papão veio assustar, trouxe a cuca pra pegar, o boi-da-cara-preta pra ajudar e não tem herói pra salvar. a amarelinha desbotou, a corda está arrebentada, o barquinho afundou, a bolha foi estourada, o pequeno bote virou, a dona aranha está cansada, a adoleta acabou, a borboleta tem empregada. sem cozinha, sem comidinha, sem passa-anel; se quer casinha paga aluguel. sem sujeira, nada de papel, nem pipa, nem avião; sem ciranda ou carrossel; nem bola, bolinha ou balão no céu, nem figurinha ou pião no chão. a graça se esconde-esconde porque a cabra-cega agora enxerga. o gato-mia mas não se sabe de onde; melhor fugir se não pega-pega. roubaram a bandeira e ninguém sabe de nada; corre cotia pra não ficar queimada. lencinho branco manchado caiu no chão e foi deixado. moça bonita de coração gelado; joão é bobo, não serve pra namorado. duro ou mole, quente ou frio, morto ou vivo; agora tanto faz. a batata é fria, seu mestre não manda, a estátua anda sem motivo. nem cravo, nem rosa, nem lenda, nem prosa. era uma vez nunca mais. o pé-de-moleque já é calejado. malandro, agora só dadinho viciado. tubaína não ganha menina, não faz ver teta de nega. sem gibi nem amor, deixa a maria dar mole que com louvor ele chega. de cigarro na boca, sabor chocolate, a surpresa já é pouca. sabe bem do doce que quer lambuzar. se acha o rei da cocada; preta, branca ou queimada. já passou da hora do geladinho esquentar. então se apressa, sem conversa; quebra-queixo de otário que ficar no seu lugar. diz que não se deixa mais enganar. a história perde a magia, a aquarela perde a cor, a vida perde a fantasia, o doce perde o sabor. não precisa mais sonhar, não tem porque imaginar. com facilidade tudo se monta e desmonta; com praticidade, sua brincadeira já vem pronta. mas tudo isso custa muito caro, perde-se o que é muito raro, não há mais festa. é o que se paga por uma infância vaga. o que vemos é o que resta: rosto pouco risonho, alma com pouca beleza, antecipada a decadência. pago a preço de sonho, pago a preço de pureza, pago a preço de inocência. como herança um mal que pede cura. crianças ou adultos em miniatura?

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